A digitalização do mercado imobiliário brasileiro abriu espaço para um novo tipo de plataforma: menos centrada apenas no anúncio do imóvel e mais focada em eficiência comercial, geração de negócios e conexão entre profissionais. É nesse movimento que a Fullimob quer se posicionar.
A empresa nasceu em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, com uma proposta direta: estruturar uma rede capaz de conectar profissionais do mercado imobiliário em um ambiente voltado à colaboração e à conversão comercial. À frente dessa construção estão Rafael Cunha, CEO da Fullimob, e Leo Rosa, sócio e estrategista comercial da empresa, que vêm conduzindo o avanço da operação com foco em expansão e geração de negócios. Em menos de um ano, a startup afirma já ter reunido mais de 1,3 mil corretores cadastrados na cidade, em números informados pela própria empresa.
O pano de fundo ajuda a explicar a aposta. O mercado imobiliário brasileiro encerrou 2024 em alta: as vendas de imóveis novos cresceram 11,8% na comparação anual, no maior patamar da série histórica desde 2014, segundo o indicador ABRAINC-Fipe. O valor acumulado de vendas no período também subiu mais de 16%, sinalizando resiliência do setor mesmo em um ambiente ainda seletivo para crédito e investimento.
Ao mesmo tempo, a digitalização do real estate avançou. O Mapa das Construtechs & Proptechs Brasil 2025, da Terracotta Ventures, reforça que o uso de tecnologia no setor imobiliário e da construção segue ganhando sofisticação, com soluções voltadas não apenas à originação de leads, mas também à produtividade comercial, financiamento, análise de dados e jornada de transação. A própria Terracotta destaca que o ecossistema de capital ligado ao setor já reúne 172 alocadores de recursos mapeados no país, um indicador de que a inovação imobiliária passou a dialogar mais diretamente com a agenda de investimento.
Para a Fullimob, essa janela é especialmente relevante porque o gargalo que a empresa pretende atacar não está só na oferta de imóveis, mas na fragmentação da força comercial. Em um mercado pulverizado, em que corretores autônomos, imobiliárias e parceiros frequentemente operam em bases desconectadas, reduzir atrito e acelerar a circulação de oportunidades pode se tornar uma vantagem competitiva.
“Estamos estruturando a Fullimob para uma expansão nacional nos próximos meses”, diz Rafael Cunha, CEO da Fullimob. “Nosso foco é criar um ambiente em que o corretor consiga gerar mais negócios com mais agilidade, aproveitando a força da rede e da tecnologia.”
A lógica interessa especialmente a investidores que acompanham startups em estágio inicial. O Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups 2025, da ABStartups, mostra que 34,8% das startups declararam já ter recebido investimento. Entre as investidas, há forte peso do capital de proximidade: 35,7% dos aportes vieram do mesmo estado e 32,8% da própria cidade, o que evidencia como os ecossistemas regionais ainda têm papel decisivo na fase inicial de tração e validação.
Esse dado ajuda a contextualizar a trajetória da Fullimob em Ribeirão Preto. O município e sua região vêm consolidando um ambiente mais fértil para inovação. Informações da Prefeitura de Ribeirão Preto apontam que a cidade possui 181 startups mapeadas e que a região metropolitana reúne cerca de 230 startups, além de parcerias entre empresas e ambientes de inovação como o SUPERA Parque. Em outras palavras, a startup nasce em um mercado imobiliário relevante e dentro de um ecossistema que já oferece densidade empreendedora.
No recorte local, o setor imobiliário também tem dado sinais de vigor. Em Ribeirão Preto, levantamento de mercado citado pela imprensa regional com base em dados da ABRAINC indicou avanço de 26% nas unidades vendidas no primeiro semestre de 2025, além de VGV superior a R$1,25 bilhão no período. Embora seja um dado reportado por veículo local, ele reforça a percepção de dinamismo da praça em que a Fullimob começou a operar.
A tese da empresa é que, em um mercado maior e mais competitivo, a vantagem não virá apenas de ter inventário, mas de conseguir mobilizar rapidamente a rede certa para cada oportunidade. Esse raciocínio ganha relevância num momento em que o investidor tem se tornado mais criterioso: a busca deixou de ser apenas por crescimento e passou a incluir sinais de eficiência operacional, retenção, capacidade de expansão e efeito de rede.
A Fullimob afirma hoje uma avaliação de R$1,8 milhão, segundo dados fornecidos pela companhia. Mais do que o número em si, o que tende a pesar na leitura do mercado é a capacidade de converter base cadastrada em recorrência de negócios. Um caso citado pela startup ilustra a narrativa de eficiência: um usuário identificado como Mateus, da Prospect, teria concluído uma venda em menos de dois dias por meio da plataforma, segundo a empresa. Em estágio inicial, histórias como essa ajudam a traduzir proposta de valor, mas a próxima etapa costuma exigir métricas mais estruturadas de conversão, retenção e expansão geográfica.
Para investidores, o apelo está em três frentes. A primeira é setorial: o imobiliário brasileiro continua sendo um mercado amplo, resiliente e com espaço para ganho de produtividade. A segunda é tecnológica: as proptechs vêm ampliando sua presença em toda a cadeia, da prospecção ao fechamento. A terceira é regional: o avanço de ecossistemas fora do eixo tradicional reforça que startups com origem local podem ganhar musculatura antes de buscar escala nacional.
Nesse contexto, a Fullimob tenta se apresentar não apenas como uma plataforma para corretores, mas como uma infraestrutura de conexão comercial para um setor que ainda opera com muitas ineficiências. Se conseguir transformar sua base inicial em densidade transacional e replicar o modelo em novas praças, a empresa poderá se posicionar como uma aposta relevante dentro da nova geração de soluções imobiliárias brasileiras.


