A epidemia silenciosa da exaustão que já afeta o cérebro, as emoções e o corpo físico

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Insônia, dores, ansiedade, pernas inchadas e fadiga persistente podem ser manifestações do adoecimento.

O Brasil nunca falou tanto sobre saúde mental. Nunca afastou tantos trabalhadores por transtornos emocionais. Nunca discutiu tanto burnout, ansiedade e estresse. Ainda assim, milhões de pessoas continuam adoecendo sem perceber.

Insônia, dores, ansiedade, pernas inchadas e fadiga persistente podem ser manifestações de um mesmo processo de adoecimento. O maior risco é quando esses sinais passam a ser vistos como parte da vida moderna.

Antes de qualquer diagnóstico, do afastamento do trabalho e, muitas vezes, da procura por um médico, o organismo costuma emitir sinais discretos: noites mal dormidas, dificuldade de concentração, irritabilidade, dores musculares, alterações intestinais, palpitações, fadiga constante, pernas pesadas e sensação permanente de que descansar já não basta.

São sintomas frequentemente tratados de forma isolada, mas que podem representar um único fenômeno: um organismo que perdeu a capacidade natural de recuperar energia.

“O corpo frequentemente expressa aquilo que a mente ainda está tentando suportar”, afirma o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates. A sociedade passou a conviver com um modelo de vida baseado em produtividade permanente, hiperconectividade e ausência de pausas reais, criando um ambiente favorável ao adoecimento físico e emocional.

O descanso deixou de ser suficiente

Existe uma diferença importante entre estar cansado e estar exausto.

O primeiro melhora após uma boa noite de sono ou alguns dias de descanso. O segundo permanece.

Ainda segundo o psiquiatra Dr. Daniel Sócrates, quando férias, fins de semana ou uma rotina temporariamente mais leve deixam de restaurar a energia, o organismo começa a demonstrar que seus mecanismos naturais de recuperação podem estar comprometidos.

“A alta performance exige esforço, mas também exige recuperação. O problema é que muitas pessoas continuam funcionando como se o cérebro pudesse permanecer ligado vinte e quatro horas por dia”.

Na avaliação do psiquiatra, o excesso de trabalho, a avalanche de notificações e a dificuldade de se desconectar mantêm o cérebro em estado contínuo de vigilância, reduzindo sua capacidade de atenção, memória e tomada de decisões.

Uma cultura que transformou o esgotamento em mérito

Para a psicóloga e neuropsicóloga Tattiana ASerra, o adoecimento começa muito antes dos sintomas físicos. Ela afirma que a cultura da produtividade transformou o excesso em sinônimo de competência e fez com que muitas pessoas perdessem a capacidade de perceber o próprio sofrimento.

“Vivemos em uma cultura que recompensa a aceleração. Quanto mais produzimos, mais acreditamos que temos valor. Nessa lógica, muitas pessoas deixam de viver para apenas funcionar”, afirma.

Segundo ela, comportamentos considerados comuns, como dormir excessivamente nos dias de folga, evitar encontros sociais por cansaço, viver irritado ou sentir culpa ao descansar, podem representar sinais precoces de desgaste emocional.

“O problema é que esses sinais acabam sendo interpretados como características da personalidade ou como uma fase difícil, quando muitas vezes já fazem parte de um processo de adoecimento”.

O cérebro não desliga, mas aromaterapia pode ajudar

A aromaterapeuta e neurocientista Daiana Petry explica que permanecer constantemente em estado de alerta produz alterações mensuráveis no funcionamento do sistema nervoso.

Quando isso acontece, o organismo mantém elevada a atividade do sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas de luta ou fuga, e reduz a atuação do sistema parassimpático, ligado ao descanso, à digestão e à recuperação.

“É como se o cérebro deixasse de reconhecer os momentos de segurança e permanecesse preparado para reagir o tempo todo”.

Segundo ela, estudos vêm demonstrando que determinados óleos essenciais, especialmente lavanda e bergamota, podem auxiliar na redução da percepção subjetiva de estresse e favorecer estados fisiológicos compatíveis com relaxamento.

Isso acontece porque o olfato possui ligação direta com estruturas cerebrais responsáveis pelas emoções e pela memória, como amígdala e hipocampo, sem passar inicialmente pelo tálamo, principal estação de retransmissão sensorial do cérebro.

Pesquisas também apontam redução de cortisol salivar e aumento de padrões cerebrais associados ao relaxamento após a exposição a esses aromas.

“A aromaterapia pode funcionar como uma estratégia complementar para ajudar o organismo a reaprender os momentos de pausa”, afirma.

A circulação também sente os efeitos da exaustão mental

Os impactos do estresse prolongado não ficam restritos ao cérebro. O cirurgião vascular Dr. Caio Focássio explica que o sedentarismo, frequentemente associado às longas jornadas de trabalho e ao home office, tornou-se um dos principais fatores de risco para doenças vasculares.

“O sedentarismo prejudica tanto a circulação arterial quanto a venosa. Quando a musculatura da panturrilha deixa de ser utilizada, o retorno do sangue ao coração perde eficiência”.

O resultado aparece em sintomas cada vez mais comuns: pernas pesadas, edema, dores, varizes e sensação constante de cansaço nas pernas.

O médico lembra que obesidade, tabagismo, anticoncepcionais e baixa ingestão de água agravam ainda mais esse cenário. “A atividade física e a hidratação continuam sendo medidas simples, mas extremamente eficazes para proteger a circulação”.

O sintoma não é o problema. É o aviso

Na avaliação do farmacêutico homeopata Jamar Tejada, um dos erros mais frequentes é tratar cada manifestação do organismo como um problema independente.

“Duas pessoas podem apresentar insônia e viver situações completamente diferentes. O importante é compreender o conjunto dos sinais”. Segundo Jamar, dores recorrentes, alterações do sono, fadiga persistente e dificuldade de concentração costumam refletir um organismo que perdeu parte de sua capacidade de adaptação.

Isso não significa que todos os sintomas tenham origem emocional, ressalta. “Eles sempre precisam de investigação clínica. O que não podemos fazer é ignorar que mente e corpo funcionam de forma integrada”.

O verdadeiro sinal de alerta

Os especialistas apontam praticamente o mesmo indicador de risco.

Não é a ansiedade.

Não é a insônia.

Nem mesmo a dor.

É a incapacidade de recuperar energia.

Quando uma pessoa dorme, descansa, tira férias e continua se sentindo física e emocionalmente esgotada, o organismo deixa de estar apenas cansado.

Ele começa a demonstrar que seus mecanismos naturais de equilíbrio já não estão conseguindo acompanhar o ritmo imposto pela rotina.

Num país em que os transtornos mentais se consolidam como uma das principais causas de afastamento do trabalho, os especialistas defendem que aprender a reconhecer esses sinais precoces talvez seja uma das estratégias mais importantes para impedir que o corpo precise interromper, à força, aquilo que a pessoa insiste em manter funcionando.

Porque, antes de adoecer, o organismo quase sempre avisa.

O problema é que, na pressa cotidiana, poucos ainda conseguem escutá-lo.

 

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